Sobre o autor:


* Giuliano Moretti é engenheiro químico, pós-graduado (MBA) em Sistemas de Gestão Ambiental, Mestre em Gestão Ambiental, Professor do curso MBA em Gestão e Auditoria Ambiental (Universidade Positivo), perito e assistente ambiental judicial, auditor e consultor da Preserva Ambiental Consultoria.

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nwashing no setor bancário é percebido pelo cidadão
por Giuliano Moretti*

Há muito tempo desejo discorrer sobre a questão da responsabilidade socioambiental dos bancos. Com uma notícia publicada pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, não tive outra alternativa senão me render ao desabafo.

População atenta

A matéria "Propaganda socioambiental dos bancos não convence", que vem ratificar a minha velha crença, cita uma pesquisa do Datafolha feita a pedido da ONG Amigos da Terra, em que se constatou que "81% dos ouvidos acham que os bancos não fazem o suficiente e só 5% julgam que eles se preocupam bastante com o assunto". A pesquisa ainda acrescenta que "Além da descrença direta com o discurso, 89% desconfia que os bancos estão preocupados com a imagem de responsáveis ambientais e não com a prática. Deste total, 58% acreditam que os bancos gastam mais dinheiro com propaganda do que com ações divulgadas e 31% acham que todo o discurso não passa de estratégia de comunicação, sendo uma "maquiagem verde". Apenas 5% acha que as propagandas mostram o quanto os bancos estão engajados na questão."

Maquiagem verde

O "greenwashing", o que se pode entender como “maquiagem verde”, é uma prática quem vem sendo muito disseminada entre os diversos setores da economia mundial. Trata-se de uma estratégia de comunicação e marketing que se utiliza de argumentos socioambientais como pano de fundo de metas puramente comerciais de certas empresas. Nesta prática, priorizam-se os discursos (leia-se altos investimentos publicitários) e minimizam-se as ações de fato (investimentos proporcionalmente módicos na resolução das verdadeiras e incrustadas questões sociais e ambientais atreladas, neste caso, às atividades bancárias).

Experiência real

Os bancos são serviços fundamentais para a sociedade, seja para o investimento no seu desenvolvimento através da concessão de créditos, seja para o recebimento de salários, efetivação de transações financeiras ou poupança dos recursos dos cidadãos e do próprio país. Sem dúvida são instituições que viabilizam a promoção do crescimento econômico, mas ainda muito distantes do efetivo comprometimento ambiental e da valorização social. Apenas há pouco tempo, sobretudo após a assinatura do documento intitulado “Princípios do Equador”, movimentações e preocupações com os impactos socioambientais advindas das atividades bancárias passaram a fazer parte da pauta da qualidade dos seus serviços.

Porém, parece-me que, não obstante os investimentos de tais instituições em ações pró-sociedade terem aumentado nos últimos anos, o exemplo da falta da chamada “responsabilidade socioambiental” é evidente dentro das próprias instituições. O que corrobora este meu posicionamento são os fatos: conheço muitos bancários (leia bem, não são banqueiros!) muito insatisfeitos com as condições de pressão impostas pelos ambiciosos objetivos financeiros do setor.

Apenas para citar um exemplo, conheço um ex-colaborador de uma dessas instituições privadas que fora designado para trabalhar como caixa. Dentre diversos acontecimentos que revelam o claro desprezo do setor para com seus colaboradores, dois deles são evidentes: péssimas condições ergonômicas que levam a doenças como o DORT (Distúrbio osteo-muscular relacionado ao trabalho - no caso dos caixas bancários), horas extras instituídas sob o impiedoso assédio moral, e o que é pior, não remuneradas. Sem contar a impossibilidade de se afastar do posto de trabalho nem mesmo para atender às necessidades fisiológicas, resultando em sérios e crônicos problemas de saúde.

Fica evidente que é mais barato para o banco ser processado apenas algumas vezes (considerando até que percam as ações), do que arcar com o verdadeiro custo da mudança na gestão organizacional como um todo. Como se não houvesse recursos para isso!  A partir do momento em que todos os colaboradores, comprovadamente lesados em função das precárias condições laborais, tiverem consciência de que a busca pelos seus diretos é um impulso para a melhoria da qualidade de vida de todos, talvez os bancos repensassem suas estratégias de contenção de custos (ao invés de focar unicamente na maximização dos lucros).

Mesmo sendo comprovado por perícia médica o problema de saúde do colaborador citado no exemplo, o sujeito não quis levar adiante uma possível lide judicial contra a instituição, talvez por medo de ter seu currículo “sujo” pelo ajuizamento de um processo contra o empregador. Talvez esta apatia tenha colaborado com a manutenção destas condições insalubres no trabalho, ao lado de outros milhares de casos semelhantes, em que funcionários não se mobilizaram para a quebra definitiva do ciclo vicioso impregnado neste tipo de organização.

Todas as vezes em que me deparo com bonitos e comoventes comerciais sobre as instituições bancárias “promovendo o bem-estar de famílias”, “velhinhos felizes brincando com seus netos” ou pessoas abraçando árvores, lembro-me desta e de outras histórias a mim relatadas por funcionários e ex-funcionários de bancos.

Há solução?

Acredito que sim. Passa, porém, por um complexo caminho de transformações. A boa notícia é que a mudança já começou e tem surtido alguns bons efeitos. A legislação mais restritiva quanto aos critérios de concessão de créditos para atividades potencialmente agressoras ao meio ambiente é um dos exemplos. Os bancos passam agora a exigir com maior frequência que critérios ambientais e sociais sejam atendidos para o financiamento de determinados empreendimentos. Ações de gerenciamento de resíduos no interior de algumas agências bancárias ou estabelecimentos erguidos sob os princípios que regem as chamadas construções sustentáveis, dentre outros bons exemplos, já são um passo rumo à melhoria da qualidade socioambiental. Mesmo considerando que, ainda, seus resultados sejam pouco expressivos.

O importante é que clientes e funcionários estejam atentos às necessidades urgentes dessas transformações, cobrando das instituições bancárias a verdadeira responsabilidade socioambiental, que é compartilhar dos lucros e benefícios gerados pelos investimentos no desenvolvimento, numa relação ganha-ganha. Não deixando de analisar criticamente, é claro, se o discurso é realmente compatível com aquilo que entendemos por "responsabilidade socioambiental ”. E que o respeito pelos colaboradores e pelo meio ambiente revele, nas próximas pesquisas, melhores níveis de confiança nessas instituições por parte do cidadão.

 

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